De volta às fontes do evangelho.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

ESCATOLOGIA - O ANTI CRISTO

15:23 Posted by JOÃO RICARDO FERREIRA No comments

O Anti-Cristo
Rev. David Chilton
Tradução do Rev. João França.
De acordo com as palavras de Jesus em Mateus 24, uma das crescentes características da época que procederia ao colapso de Israel seria a apostasia dentro da igreja cristã. Isto já foi mencionado antes, porém um estudo mais concentrado neste ponto lançará muita luz sobre um bom numero de pontos da discussão relacionados no Novo Testamento – pontos que geralmente tem sido mal compreendido.
Na realidade os únicos casos em que aparece o termo anticristo são os seguintes versículos nas cartas do apóstolo João:
Filhinhos, já é a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também, agora, muitos anticristos têm surgido; pelo que conhecemos que é a última hora. Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos. Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho. Todo aquele que nega o Filho, esse não tem o Pai; aquele que confessa o Filho tem igualmente o Pai. Isto que vos acabo de escrever é acerca dos que vos procuram enganar.
(1ª João  2.18-19, 22-23,  ARA)
Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora. Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo. Filhinhos, vós sois de Deus e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo. Eles procedem do mundo; por essa razão, falam da parte do mundo, e o mundo os ouve. Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus nos ouve; aquele que não é da parte de Deus não nos ouve. Nisto reconhecemos o espírito da verdade e o espírito do erro.
 (1ª João 4.1-6 ARA)
Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo. Acautelai-vos, para não perderdes aquilo que temos realizado com esforço, mas para receberdes completo galardão. Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem tanto o Pai como o Filho. Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem lhe deis as boas-vindas. Porquanto aquele que lhe dá boas-vindas faz-se cúmplice das suas obras más.
 (2ª João 7-11 ARA)
            Os textos citados acima compreendem todas as passagens bíblicas que mencionam a palavra anticristo, e delas podemos extrair várias conclusões importantes:
            Primeira, os cristãos já haviam sido advertidos da vinda do anticristo (1ª João  2.18; 4.3).
            Segunda, não havia apenas um, mas “muitos anticristos” (1ª João 2.18), por conseguinte,  o termo anticristo não pode ser simplesmente a designação de um indivíduo.
            Terceira, o anticristo já estava em operação, como escreveu João: “muitos anticristos têm surgido” (1ª João 2.18 ARA) “Isto que vos acabo de escrever é acerca dos que vos procuram enganar”. (1ª João 2.26 ARA); “este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo.” (1ª João 4.3 ARA); “Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, [...] assim é o enganador e o anticristo.” (2ª João 1.7 ARA). Obviamente, se o anticristo já estava presente no primeiro século, não era alguma figura que se levantaria no fim do mundo.
            Quarta, o anticristo era um sistema de incredulidade, particularmente a heresia de negar a pessoa e a obra de Cristo Jesus. Ainda que os anticristos aparentemente afirmavam pertencer ao Pai, ensinavam que Jesus não era o Cristo (João 2.22); junto com os falsos profetas (1ª João 4.1), negavam a encarnação (1ª João 4.3; 2ª João 7,9); e rejeitavam a doutrina apostólica (1ª João 4.6).
Quinta, os anticristos haviam sido membros da igreja cristã, porém haviam apostatado (1ª João 2.19). Agora estes apóstatas tentavam enganar a outros cristãos, para distanciá-los da igreja completamente de Cristo Jesus (1ª João 2.26; 4.1; 2ª João 7,10).
            Juntando tudo isto, não podemos deixar de ver  que o anticristo é uma descrição tanto de um sistema de apostasia como dos apóstatas individuais. Em outras palavras, o anticristo era o cumprimento da profecia de Jesus de que viria um tempo de grande apostasia, quando “muitos hão de se escandalizar, trair e odiar uns aos outros; levantar-se-ão muitos falsos profetas e enganarão a muitos.” (Mateus 24.10-11 ARA). Como disse João, os cristãos haviam sido advertidos da chegada do anticristo; e efetivamente, haviam sido advertidos da chegada do anticristo; e efetivamente, haviam surgido “muitos anticristos”. Durante um tempo, haviam crido no evangelho; mais tarde, haviam abandonado a fé, e haviam ido por ali procurando enganar aos outros, e se foi iniciando novas seitas ou, mais provavelmente, tratando de trazer para os cristão pra o judaísmo – a falsa religião que afirmava adorar ao Pai enquanto negava ao Filho. Quando a doutrina do anticristo se entende, encaixa perfeitamente com o resto do que nos ensina o Novo Testamento sobre a época da “última geração”.
            Um dos anticristos que afligiu a igreja primitiva foi Cerinto, líder de uma seita judaica do primeiro século. Considerado pelos pais da igreja como “o arque herege”, e identificado como um dos “falsos apóstolos” que se opunha a Paulo, Cerinto foi um judeu que ingressou na igreja e começou a atrair os cristãos para fora da fé ortodoxa. Ensinava que uma deidade menor, não é o Deus verdadeiro, havia criado o mundo (sustentando, como os gnósticos, que Deus era super “espiritual” para ocupar-se da realidade material). Logicamente, isto significava também a negação da encarnação, posto que Deus não assumiria um corpo físico e uma personalidade verdadeiramente humana. E Cerinto era consistente: declarava que Jesus havia sido meramento um ser humano ordinário, não nascido de uma virgem; que “o cristo” (um espírito celestial) havia descido sobre o homem Jesus quando ele foi batizado (permitindo-lhe realizar milagres), mas que o havia abandonado na crucificação. Também, Cerinto defendia uma doutrina da justificação pelas obras – em particular, a absoluta necessidade de observar as ordenanças cerimoniais do Antigo Pacto – para ser salvo.
            Também, Cerinto foi aparentemente o primeiro a ensinar que a segunda vinda anunciaria um reino de Cristo literal em Jerusalém durante mil anos. Ainda que isto não fosse contrário ao ensino apostólico do reino, Cerinto afirmava que um anjo lhe havia revelado esta doutrina (de modo similar ao de Joseph Smith, um anticristo do século dezenove, que mais tarde afirmaria haver recebido uma revelação angélica)
            Os verdadeiros apóstolos se opuseram severamente à heresia de Cerinto. Paulo admoestou as igrejas: “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema”. (Gálatas  1.8 ARA). Na mesma carta, Paulo passou a refutar as heresias legalistas sustentadas por Cerinto. Segundo a tradição, o apóstolo João escreveu seu evangelho e suas cartas tendo em mente a Cerinto. (Também se nos diz que, ao entrar João no banho público, viu este anticristo diante dele. O apóstolo deu meia volta imediatamente e saiu correndo, enquanto exclamava: “Fujamos, antes que o prédio caia sobre nós; porque Cerinto, o inimigo da verdade está dentro!”).
           


sábado, 17 de fevereiro de 2018

sábado, 7 de outubro de 2017

A Arte do Contentamento Cristão

16:53 Posted by JOÃO RICARDO FERREIRA No comments
O CONTENTAMENTO CRISTÃO
Por
Rev. Ronaldo Soares dos Santos*
O puritano Jeremiah Burroughs, escreveu um tratado intitulado “A rara joia do contentamento cristão”.[1] Para ele, o contentamento cristão é um mistério difícil para o homem compreender, e somente a graça de Deus é que pode nos ensinar a combinar tristeza e alegria numa experiência comum de paz e contentamento. Para Jeremiah, contentamento é o fruto de um coração grato.
O consumismo tem sido uma das marcas de nossa geração. Tudo é descartável. Hoje, determinada coisa pode ser boa para o uso até surgir à próxima inovação. O fato, é que no geral, a medida do contentamento parece que nunca encontra o seu limite. Parece que é algo que sempre está por acontecer, mas nunca acontece. Normalmente, dizemos que no dia em que tivermos este ou aquele bem, ou alcançamos esta ou aquela virtude ou graça, aí então encontramos a medida de nosso contentamento. A verdade, é que sempre haverá algo por atingir, um bem que ainda não alcançamos, uma conquista que nos falta e etc. Parece-nos que o contentamento está sempre na próxima curva. Tudo isso tem levado muitos a passarem suas vidas lamentando e murmurando, mesmo tendo o suficiente para viver. É como diz um ditado popular muito conhecido: “vivem chorando de barriga cheia”. Isso é pecado!
Diante de tudo isso, pergunta-se: é possível um cristão viver nesse mundo contente e satisfeito independente das circunstancias?   
Sim, é possível. Em Filipenses 4.10-13, descreve o apóstolo Paulo declarando que aprendeu a viver contente “em toda e qualquer situação”. Para ele, tanto a humilhação quanto à honra, tanto a riqueza quanto a pobreza, tanto a fartura quanto a fome, não eram impedimento para o seu estado de contentamento. É importante sabermos que o contentamento para Paulo não significava uma acomodação em relação aos desafios da vida e da missão, nem tampouco um desinteresse por melhorar e crescer. Trata-se de um estado de alma que possui em Cristo tudo quanto lhe é necessário para sua alegria, paz e comunhão com Deus independentemente das circunstâncias.
Então, Paulo nos diz a razão, ou a base, para o seu contentamento: “Tudo posso naquele (Cristo) que me fortalece” (vs. 13). Deste modo, Paulo revela que o poder fortalecedor de Jesus é o segredo do seu contentamento.
Mas, como é possível experimentá-lo em nossos dias? Como o Apóstolo Paulo descobriu esse segredo?
Em primeiro lugar, Paulo aprendeu – ( vs.11b). A primeira lição que podemos tirar do estado de contentamento do Apóstolo Paulo é que ele “aprendeu”.  O verbo “aprender” refere-se “aprender por experiência”. Isso significa dizer que esse contentamento espiritual não era algo que ele havia assimilado imediatamente depois da conversão. O apostolo teve que passar por várias experiências a fim de aprender a viver contente. Ele considerava cada experiência boa ou ruim uma excelente oportunidade para amadurecer no seu relacionamento com Cristo e encarar as adversidades da vida de modo confiante.  
Em segundo lugar, Paulo aprendeu a viver contente – (vs.11b). A palavra traduzida por contente (no grego: autarkes) significa “autossuficiente.” Era uma das palavras prediletas dos filósofos estoicos. Os estoicos consideravam uma grande virtude a capacidade pessoal de se distanciar das circunstancias externas e encontrar em si mesmo os meios para lidar com quaisquer situações. Paulo usa o mesmo termo, contudo, com uma conotação diferente. Para Paulo, o poder ou capacidade para passar por diversas contrariedades, e ainda assim se manter contente, não vinha dele mesmo, mas estava em Cristo – “Tudo posso naquele que me fortalece”. Paulo não estava rindo em meio ao sofrimento; o que ele estava afirmando é que em Cristo ele podia superar qualquer sofrimento vitoriosamente.                
Em terceiro lugar, Paulo aprendeu viver contente “em toda e qualquer situação” – (vs.11c ).  A experiência do Apostolo vivida ao longo da sua vida com Cristo, fazia com que ele passasse as mais variáveis situações sem perder a serenidade:
__Na hora da humilhação e exaltação: SERENO;
__Na hora da fartura e fome: SERENO;
__Na hora da abundância e escassez: SERENO.  
Finalmente, Paulo declara: “Tudo posso naquele que me fortalece” – (vs.13). As aplicações mais comuns que dão a este texto são: Tudo posso ter, fazer, adquirir, conquistar, prosperar naquele que me fortalece. Todavia, não foi isso que Paulo pretendeu dizer. Considerando o contexto, o que realmente Paulo quis dizer foi: “estou pronto para passar por qualquer coisa por meio da força daquele que vive em mim.”
Era o poder de Cristo na vida do Apóstolo Paulo que lhe dava o contentamento espiritual para viver em qualquer situação. Ele aprendeu porque Cristo o fortalecia, a viver contente porque Cristo o fortalecia, em toda e qualquer situação porque Cristo o fortalecia.
Portanto, conclui-se que, a base do contentamento cristão é uma completa dependência do poder de Cristo. Em Cristo temos tudo que precisamos para viver uma vida de satisfação, paz e alegria. Ele é o Pão que sacia a nossa fome, a água que alivia nossa sede, a luz que ilumina nossa estrada e o caminho que nos conduz até ao céu.
Que possamos aprofundar o nosso relacionamento com Cristo a tal ponto de não perdermos o contentamento quando formos surpreendidos por algum infortúnio nesta vida. Antes, busquemos nele a suficiência de que necessitamos para superar as mais variadas situações. Cristo mesmo diz para aqueles que confiam nele: “...contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei. Assim, afirmemos confiadamente: O Senhor é o meu auxílio, não temerei” (Hb 13.5b-6a).




* Ministro da Palavra e dos Sacramentos pela Igreja Presbiteriana do Brasil. Atualmente é Pastor da Igreja Presbiteriana da Fraternidade em Feira de Santana – BA. É casado e tem um casal de filhos.
[1] Obra publicada pela Publicações Evangélicas Selecionas (PES).

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

A NECESSIDADE DA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA

17:37 Posted by JOÃO RICARDO FERREIRA No comments
DISCIPLINA: HERMENÊUTICA
Prof. Rev . João França.
AULA – 02 – A NECESSIDADE  DA HERMENÊUTICA.
Introdução:
No estudo da interpretação bíblica devemos considerar alguns aspectos importantes para uma hermenêutica adequada da Palavra de Deus. Uma das dificuldades que encontramos hoje na vida da Igreja é certamente a falta de compreensão sobre quem realmente necessita da Hermenêutica Bíblica.
Nesta aula nós iremos analisar de perto a questão da necessidade  desta disciplina na vida da igreja de Cristo. Todos nós interpretamos o mundo que nos cerca, conforme vimos na aula anterior. Pois, todos nós temos pressupostos na leitura das Escrituras.
I – QUEM PRECISA DE HERMENÊUTICA?
Esta é uma daquelas questões que não deveria ser suscitar  debates. Uma vez que todos nós, de modo ou de outro, somos intérpretes de tudo o que nos cerca. Mas, interpretar a Bíblia? Ora, por que há essa necessidade de interpretar as Escrituras? Muitos cristãos dizem que não precisam estudar hermenêutica, ou seja, julgam que não precisam dela.
Os que pensam na necessidade da disciplina hermenêutica argumentam que a Bíblia é um livro divino, e assim, “exige de nós algum treinamento especial para entendê-la”.[1], mas, tal resposta deixa-nos em uma situação paradoxal, conforme nos lembra AlonsoSchökel: “Se alguém é capaz de falar de maneira absolutamente clara e tornar-se compreensível com eficácia irresistível, esse tal é Deus; portanto, se há alguma palavra que poderia não exigir hermenêutica, essa seria a palavra divina”.[2] E, é exatamente neste lado do pêndulo que muitos se agarram, especialmente quando se conhece a doutrina protestante da perspicuidade das Escrituras [clareza das Escrituras] e dizem que em si mesmas as Escrituras são claras. E o que decorre disso é a negação da Hermenêutica Bíblica. Tal postura nega a importância da interpretação dos textos sagrados.  Osborne alerta:
A hermenêutica é importante porque capacita a pessoa a se movimentar do texto para o contexto, para que o significado inspirado por Deus na Bíblia fale hoje com uma relevância tão nova e dinâmica quanto em seu ambiente original. Além disso, pregadores ou professores devem anunciar a Palavra de Deus em vez de suas opiniões religiosas repletas de subjetividade. Só uma hermenêutica bem definida pode manter alguém atrelado ao texto.[3]
Mas, um ponto importante não é fato que as escrituras precisam ser interpretadas por causa de sua natureza divina, mas exatamente por causa do seu lado humano. As Escrituras são apropriadamente chamada “palavra divina em palavras humanas” [4] Esta necessidade interpretativa é necessária exatamente porque a linguagem humana é “equivoca”[5] A linguagem humana tem gerado muitos mal-entendidos, e por esta, razão se faz necessário o estudo da hermenêutica.
II – AS RAZÕES PARA A NECESSIDADE DA HERMENÊUTICA:
Consideremos neste momento as razões pelas quais se justifica a necessidade da hermenêutica.
2.1 – A Corrupção Natural do Homem:
            Um dos aspectos fundamentais para a necessidade da interpretação é a condição espiritual do homem. O homem depois da queda possui os “olhos do entendimento” entenebrecido (Efésios 4.17-18) – observemos a expressão: “entenebrecido no entendimento”[ ἐσκοτωμένοι  τῇ  διανοίᾳ- eskotômenoi tê dianoia] aponta para o fato de que a mente do homem  foi afetada pela queda. Logo, ele não consegue compreender adequadamente a Palavra de Deus. A evidência textual desta necessidade é certamente 1ª Coríntios 2.14-15 – o homem natural não pode entender as realidades espirituais.
2.2 – O Abismo Cultural:
Precisamos saber interpretar a Bíblia para superar o Abismo Cultural. A Bíblia como livro vindo da lavra humana tem perspectivas culturais significativas. Ler o livro de Gênesis e perceber fatos como no capítulo 15 - o dividir os animais ao meio - e saber que culturalmente era assim que se processava na cultura de então ao afirmar uma aliança; ajuda-nos a entender porque Deus não permitiu que o patriarca passe no meio daqueles pedaços partidos. Alguém já disse que cada “um de nós vê a realidade através dos olhos condicionados pela cultura e por uma variedade de outras experiências.”[6]
2.3 – O Problema da Língua:
A Bíblia foi escrita em outra língua que não é a nossa. As Escrituras foram redigidas em três idiomas diferentes e até desconhecido para a maioria de nós:
Estes são os principais elementos importantes para justificar a necessidade da Hermenêutica Bíblica.
III – A HERMENÊUTICA LIVRE DE PRESSUPOSTOS: É POSSÍVEL?
            A grande pergunta que precisamos fazer ao estudar o tema da necessidade da Interpretação Bíblica. É aquela que questiona: É possível interpretamos a Palavra de Deus livre de pressupostos?
            A resposta a esta indagação é negativa. Ainda que os adeptos da Escola Racionalista de Interpretação (Método Histórico-crítico) cheguem a afirmar que “a exegese bíblica deve ser praticada de modo neutro, isento de pressuposições teológicas apriorísticas”[7], entretanto, tal tese não se sustenta. Pois, as pressuposições ocupam um lugar bastante importante no processo interpretativo, o pressuposicionalismo desenvolvido por Vantil e Kyper revelam esta verdade.[8] Que pressuposições devemos ter ao nos aproximar da Bíblia para o processo de interpretação?
3.1 – A Doutrina da Revelação:
A ideia de que Deus se revela nas obras da criação é o pressuposto capital para o processo interpretativo das Escrituras (Salmos 19.1-4; Romanos 1.18-20), neste aspecto podemos dizer que a criação que uma revelação natural de Deus  o livro no qual Deus revela quem ele é como criador. Este aspecto da revelação não salva ninguém; mas, aprove a Deus revelar-se diretamente, e a assim se procedeu por meio do Seu Espírito Santo, por Revelação direta, por teofanias, por anjos, sonhos, visões, inspiração e Seu Filho Jesus(Ex. 3. 16; Sl 147. 19, 20; Hb. 1. 1,2; Gl. 1. 11, 12). Deus não é o totalmente oculto, mas é o que se revela nas obras da criação e da providência (veja-se a Confissão de Fé de Westminster Capítulo 1.1).
Levemos em consideração que a forma de Deus comunicar a obra redentora é por meio da Revelação Especial (Escritura Sagrada) conforme vemos em 1ª Timóteo 3.15 e 2ª Timóteo 3.15-16.
3.2 – A Doutrina da Inspiração Verbal e Plenária das Escrituras:
            Outro pressuposto que devemos ter antes de irmos ao processo interpretativo do texto das Escrituras; é aquele que declara ser a Bíblia plenamente soprada pelo Espírito Santo. Paulo Anglada lembra-nos que a “doutrina da inspiração é a pressuposição bibliológica fundamental da hermenêutica reformada.”[9] Esta doutrina é  o “fundamento da hermenêutica e exegese”[10] da Reforma. A própria Escritura (Evidência Interna) dá testemunho de si como inspirada por Deus (Ex. 4. 22; Jz 6. 8; Is 43. 14; ISm 15. 23; Jr. 1. 4; Mt 5. 17, 17; Jo10. 35; Hb. 3. 7ss).
3.3 – A Doutrina da Autoridade das Escrituras:
            Outro pressuposto importante é a compreensão de que as Escrituras possuem plena autoridade sobre a vida da igreja e sobre aquele que interpreta a Bíblia Sagrada. Esta doutrina é de fundamental importância para aqueles que pretendem estudar e interpretar as Escrituras Sagradas.
            Aquilo que nós compreendermos sobre a autoridade absoluta das Escrituras fará toda diferença no estudo hermenêutico das Escrituras. Packer vai nos dizer que a autoridade das Escrituras repousa na inspiração” [11]. A Bíblia guia a nossa vida e dita a forma como devemos ver e adorar a Deus naquilo que ele requer de nós. Cristo sempre apelou para as Escrituras como a um tribunal supremo. Em qualquer controvérsia ele usava a expressão “está escrito” indicando que a palavra final deve ser dada a Palavra inspirada por Deus. Vejamos isso detalhadamente em Mateus 4.4,6,710.
            Cristo ao usar a expressãoesta escrito usa a forma verbal em grego ge,graptai gégraptai e um verbo no perfeito que indica uma ação continua, significando permanece escrito, então, o Senhor Jesus esta apelando para a autoridade da Biblia como fonte autorizada da verdade
3.4 – A doutrina da Suficiência das Escrituras:
            Ao interpretarmos as Escrituras devemos considerar que elas são profundamente suficientes para a vida e piedade do crente. O lema Sola Scriptura aponta para a realidade de uma Bíblia suficiente.
            Mas, o que é essa doutrina? A resposta mais simples e clara que podemos oferecer a esta pergunta e que o Sola Scriptura ensina que a Bíblia regula a vida em sua totalidade”[12] a Confissão de fé fala-nos do quanto as Escrituras sao realmente suficientes para a igreja. Os teólogos puritanos declaram: Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela.” (CFW – capítulo 1. Seção 6) – veja-se: 2ª Tim.3.15-17.
Aqui nós temos um conceito subjacente ao Sola Scriptura [Somente a Escritura] que é o de Toda Scriptura [ Toda Escritura], também desenvolvido na reforma protestante; e, de Acordo com Fred Klooster, este ponto de vista a respeito da Escritura como “única e  completa’ (sola e tota Scriptura) é exclusivamente reformado”[13]
Então, ao interpretamos o texto sagrado devemos ir até uma Bíblia suficiente. Não estamos interpretamos um documento incompleto, imperfeito que precisa ser adicionado com outros ditos, ou com novas revelações; o estudo sério e laborioso das Escrituras se torna compensador quando pressupomos que estamos diante da vontade suficiente de Deus apresentada nas Escrituras.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1.      ALONSO-SCHÖKEL, Luis. Hermenéutica de la Palavra. Madrid: Cristandad, 1986, volume 1.
2.      ANGLADA, Paulo Roberto Batista. Introdução à Hermenêutica Reformada. Anamindeua: Knox Publicações, 2006.
3.      BEEKE, Joel. R. Vivendo para a Glória de Deus – Uma Introdução à Fé Reformada. Tradutor: Francisco Wellignton Ferreira. São Paulo: Editora Fiel, 2010.
4.      DIAS. Cassio Murilo. Manual de Exegese Bíblica. São Paulo: Paulinas, 2006
5.      KAISER JR, Walter C.; SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
6.      OSBORNE, Grant. R. A Espiral Hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 2009.
7.      PAKER, James I. Vocábulos de Deus. São Paulo: Fiel, 2002.
8.      SCHWERTLEY, Braian. M. Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto. Tradutor: Marcos Vasconcelos. São Paulo: Editora os Puritanos, 2000.
9.      VIRKLEY, Henry. Hermenêutica Avançada. São Paulo: Vida, 1987.





[1] KAISER JR, Walter C.; SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 14.
[2]ALONSO-SCHÖKEL, Luis. Hermenéutica de la Palavra. Madrid: Cristandad, 1986, volume 1, p.83.
[3] OSBORNE, Grant. R. A Espiral Hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 27.
[4] DIAS. Cassio Murilo. Manual de Exegese Bíblica. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 11
[5] KAISER JR, Walter C.; SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 14.

[6] VIRKLEY, Henry. Hermenêutica Avançada. São Paulo: Vida, 1987, p 12
[7] ANGLADA, Paulo Roberto Batista. Introdução à Hermenêutica Reformada. Anamindeua: Knox Publicações, 2006, p.18.
[8] Veja-se KAISER JR, Walter C.; SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 222-223.
[9] ANGLADA, Paulo Roberto Batista. Introdução à Hermenêutica Reformada. Anamindeua: Knox Publicações, 2006, p.136.
[10] Ibid, p.137.
[11] PAKER, James I. Vocábulos de Deus. São Paulo: Fiel, 2002, p. 33.
[12] SCHWERTLEY, Braian. M. Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto. Tradutor: Marcos Vasconcelos. São Paulo: Editora os Puritanos, 2001, p.1.
[13] Apud¸ BEEKE, Joel. R. Vivendo para a Glória de Deus – Uma Introdução à Fé Reformada. Tradutor: Francisco Wellignton Ferreira. São Paulo: Editora Fiel, 2010, p. 150

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Temendo e tremendo

15:30 Posted by Unknown No comments
O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; bom entendimento têm todos os que cumprem os seus mandamentos; o seu louvor permanece para sempre.Salmos 111:10
Numa situação onde percebemos que escapamos de um perigo muito intenso, onde corríamos risco de morte, por exemplo, por vezes não conseguimos controlar o nosso corpo. Trememos, choramos, suamos, até desmaiamos. Embora sintamos certo alívio, pois de fato o perigo já passou, não conseguimos anular o efeito da química liberada por nosso cérebro, que se preparava para enfrentar tamanho choque. Isso se dá quando passamos de ser vítimas de assaltos, acidentes, conflitos e etc.

Todos nós corríamos grande perigo. Nascemos culpados; “Pois todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus. Rm – 3:23”, e nosso destino mais que certo era o inferno.
Mas pela graça de Deus, em Cristo Jesus fomos salvos da ameaça iminente. Não era uma probabilidade, não corríamos o risco de sermos condenados, este veredito era mais que certo, pois éramos filhos da ira; “Entre os quais todos nós também andávamos nos desejos da carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos, e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também. – Ef 2:3”. Por intermédio de Jesus Cristo nosso Rei, Deus Pai, nos livrou de sermos consumidos por sua infalível justiça, crucificando a seu Filho numa cruz, para então pagar o preço pelos nossos pecados. A grande pergunta que fica depois tudo isso é: Por que somos tão desleixados no serviço a Deus? Por que prestamos a Deus um culto tão pobre e somos tão ingratos para com Aquele que nos livrou do abismo?
A resposta mais provável para essas perguntas, é que não temos a devida noção sobre o destino que nos aguardava não fosse a intervenção divina. Somos insensíveis a voz do Santo Espírito de Deus que nos fala através da escritura sobre isso.
E agora, por sua vez chegamos a um segundo questionamento: Por que não temos essa noção? A solução para essa indagação é simples, estamos distraídos demais nos preocupando apenas conosco. Estamos anestesiados por uma cultura que nos cerca de mimos e agrados, onde tudo gira ao nosso redor. Ficamos extasiados com as propostas tentadoras de sucesso, e com os projetos já prontos que o mundo nos oferece, de uma vida tranquila, regada a luxos e mordomias.
Mas claro, como nada vem de graça (no mundo), é requerido esforço e empenho total, sem pausas, devemos nos dedicar arduamente aos nossos objetivos, que muitas vezes nem são nossos, nos foram empurrados goela abaixo pelo sistema mundano, mas como estamos cegos não percebemos isso, e seguimos a correnteza. Estudamos horas por dia, para passar nos vestibulares, dedicamos inúmeras horas, para cumprir as metas estipuladas pelo mercado de trabalho, e assim nos tornamos os mais bem sucedidos profissionais.
O preço disso é uma vida cristã cada vez mais relaxada. Enquanto o ritmo para atender nossas próprias expectativas aumenta, o empenho e diligência em servir a Deus e agradá-lo diminuem vertiginosamente. Nossos cultos estão abarrotados de pessoas que mal sabem o que estão fazendo ali, ou quem receberá todos aqueles cânticos.
Pessoas que não entendem por que estão sentadas a mais de 40 minutos ouvindo alguém falar. Cantam louvores, recitam orações, lêem a escritura, ouvem a pregação, mas nada disso lhes comunica alguma devoção. Tudo isso por que não se dão conta do perigo que corriam, e da maravilha do livramento que Deus as deu. Não levam a realidade de céu a inferno a sério, talvez pensem que isso é uma realidade distante, e que não lhes exige um zelo tão grande assim.
Ou que o fato de apenas estarem ali, já é suficiente, e seja de que forma for Deus é um Deus amoroso, carinhoso e compassivo, há de aceitar um culto empurrado com a barriga. Alguns ousados afirmam que o que conta para Deus é a sinceridade do coração. Mas será que isso, é de todo suficiente? Afinal, podemos ser sinceros admitindo um erro, mas isso não significa por exemplo, que estamos arrependidos de o ter cometido.
Como o salmista tão sabiamente afirma, Temer a Deus significa agradá-lo com nossa vida, entregar-se ao serviço ao Senhor com tudo que temos e somos.
Rasgar o nosso coração diante dEle, e suplicar que nos permita reverencia-lo da forma mais perfeita que pudermos. Tremer diante do Senhor, é saber que Ele é o Deus dos deuses e Senhor dos senhores, que Ele é soberano e governa o universo com cetro de retidão de justiça. Que Ele, que é adorado dos céus até o inferno, e do inferno até os céus, controla e rege a tudo e a todos da maneira que melhor lhe parece, e que por isso coube a Ele, exclusivamente a Ele salvar quem quis do fogo de sua ira.
Unindo esses dois sentimentos; temer e tremer, estaremos no centro da vontade de Cristo, conhecendo cada vez mais a Ele, e buscando progressivamente agradá-lo e bendizê-lo, louva-lo e goza-lo para sempre, obedecendo a sua boa, perfeita e agradável vontade, andando nos seus preceitos e mandamentos, servindo aos nossos irmãos com alegria e em unidade. Esse deve ser o verdadeiro sentimento que permeia a vida cristã: Cristo ou nada. Cristo por tudo!
Segui a paz com todos!

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Os inimigos da Cruz de Cristo

06:50 Posted by Unknown No comments
Por Rev. Luiz Augusto Bueno - (Copiado do blog KYRIE ELÉISON)

“Pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas vezes, eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo. O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia, visto que só se preocupam com as coisas terrenas”. (Paulo aos Filipenses 3.18,19)

Cada dia que passa a afronta contra Cristo e a igreja visível aumenta. Não sejamos inocentes e ignorantes. Essa situação é parte do processo profético acerca da ascendência do Anticristo. A fé cristã e o cristianismo são vilipendiados pelos inimigos, pois é a marca de Satã e seus demônios. 

Mas também a cada dia me espanto com a passividade e a letargia dos que assim se declaram cristãos evangélicos e não se posicionam quando Cristo, a fé cristã e seus símbolos sacramentais são feitos escárnios. Ademais os pontos de vista teológicos que nos separam como denominações, há aqueles que não se sentiram ofendidos quando o Lobby Gay na semana passada em passeata usou os símbolos de nossa fé em atos que nos impedem até mesmo de relatar. 

É uma pena que a fé cristã se tornou tão racionalista que não cremos mais nos sacramentos e nos símbolos sacramentais. É óbvio que não creio em objetos poderosos, mas a cruz deixou de ser um objeto comum, ela se tornou um símbolo e sinal de uma mensagem de vida. 

Para aqueles que são cristãos e não se sentiram ofendidos com o escárnio, estes necessitam compreender o que de fato são os símbolos cristãos. Símbolo é todo sinal ou objeto que emite uma mensagem. A cruz é um símbolo cristão, como o peixe o era na época do primeiro século, como a Bíblia é e como tantos outros símbolos e estes necessitam ser conservados não como objetos de poder, mas como mensagem viva. Por isso me senti ofendido, pois o nome de Cristo é que estava sendo vilipendiado. Os símbolos devem ser sagrados, porém não adorados. Perder essa noção é tornar-se um racionalista. 

Quando o nome de Cristo e nossa fé são usados assim, a Igreja precisa se posicionar. Isso faz parte de nossa missão. A missão da igreja não é apenas fazer propaganda do evangelho, mas se colocar contra a ética, a imoralidade, contra a corrupção, contra a injustiça social e contra todos os atos deste mundo que são contra a verdade. A isso chamamos de “obras de justiça”. Não pregamos um evangelho pós-túmulo, mas o evangelho faz diferença em nossa vida aqui e agora. Recebemos a vida eterna agora e não somente quando morrermos. Por isso o posicionamento dos cristãos é tão necessário. Se deixarmos de ser sal e luz, nossas obras continuarão sendo “trapo de imundícia” e perdemos nossa natureza e nossa marca como igreja de Cristo. 

  
Qual a sua posição como cristão diante deste mundo? De passividade? De letargia? O que tens a fazer, estás fazendo? A fé não permite posição equidistante. Não podemos ficar em cima do muro, pois se nos calarmos as pedras clamarão!

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Testemunho de um encarcerado

16:04 Posted by Unknown No comments
Por Paulo Ulisses




"[...]Por cuja causa padeço também isto, mas não me envergonho; porque eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia".
2 Timóteo 1:12




   A segunda carta do apóstolo Paulo a Timóteo, é sua última carta. Ele está preso em Roma, numa masmorra fria, fétida e insalubre. Depois de ter sofrido coisas terríveis em prol do evangelho, seu fim parece que será nada glorioso. O que gostaria de destacar, é que Paulo, sabendo que sua morte se aproximava poderia ter escrito uma epístola, onde iria exortar uma igreja, ou muitas. Poderia ter redigido algo para os outros apóstolos e presbíteros, com o objetivo de encoraja-los. Mas ele prefere endereçar suas ultimas linhas a seu filho na fé Timóteo. Até aqui não há nenhum problema, no entanto ao repararmos no teor das primeiras frases do capítulo 1, veremos que se trata de alguma coisa a mais do que uma simples injeção de ânimo, mas Paulo deseja fazer com que Timóteo abrace seu ministério, e é aqui que faremos nossa análise.

   Todos nós aprendemos desde muito crianças, que quando queremos encorajar alguém a fazer algo, devemos mostrar o quanto aquilo será bom e proveitoso, seja de que forma for. Encarar os medos pode fazer com que desfrutemos de sensações ou vivamos experiências formidáveis; como pular de um trampolim, experimentar um prato novo e outras coisas semelhantes. Sempre buscamos fazer com que as pessoas percebam as inúmeras vantagens que ela terá ao fazer aquilo que as estamos encorajando a fazer. No entanto o apóstolo Paulo vai totalmente de encontra a esse princípio, ao animar Timóteo ele faz questão de deixar bem claro que ao abraçar o ministério, o jovem não terá nenhuma vantagem, pelo contrário, sofrerá, e usando a si mesmo como exemplo ele corrobora isso:
"Para o que fui constituído pregador, e apóstolo, e doutor dos gentios.
Por cuja causa padeço também isto, mas não me envergonho; porque eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia".
2 Timóteo 1:11,12
   Em 2Conríntios 11:16-33, Paulo nos dá uma lista extensa de alguns dos sofrimentos que ele viveu por amor do evangelho, fome, frio, sede, naufrágios, assaltos, perseguições, e agora em suas últimas palavras a seu filho na fé Timóteo ele deseja que o jovem presbítero tome parte nesses sofrimentos (2Timóteo 2:3). Tudo isso se choca fortemente contra o que vemos no meio "evangelical", observamos pessoas assumirem a postura de pastores e obreiros, pensando desfrutar de alguma boa posição, ou que estarão em uma situação de prestígio. Somos encorajados a achar que ser cristão é algo humanamente fabuloso, estaremos caminhando rumo ao sucesso, quer ele seja financeiro, quer sentimental e etc. Mas ao lermos essa carta nós percebemos que o evangelho não é nada disso, mas sim sofrer por amor a Cristo, padecer nesta vida por caminharmos na contra-mão do mundo, mantendo nossa vida ilibada e santificada, dentro dos conceitos e vontade de Deus. Paulo não aponta para Timóteo um caminho belo e fácil, mas uma estrada sufocante, dura e até fatal. E é exatamente ai onde reside a beleza do evangelho, caminhamos com nossos corpos amortecidos, pela dura batalha, mas olhando firmemente para o alvo que é Cristo Jesus sem nos desviar para a esquerda ou para a direita. Sofrendo perseguições como bons soldados de Cristo, nos despojamos das coisas dessa vida com o fim de agradar tão somente aquele que nos arregimentou para sua causa. Quando somos verdadeiramente atraídos a Cristo, nada nesse mundo passa a ter algum sentido a ponto de nos arrebatar dos caminhos do evangelho.

   É esse evangelho maiúsculo que o apóstolo Paulo, aponta para Timóteo em seus últimos momentos em vida. Este é o testamento de um velho para seu filho. Esse é o último espasmo de fôlego de vida que o espírito de um mestre dá em prol de seu pupilo; mostrar-lhe um rio regado a sangue, seu próprio sangue, que desembocará em um rio de sangue, maior ainda, o sangue de Cristo, que o levará  por sua vez até o porto seguro dos braços de Deus. Não deixemos que a ilusão vivida pelo mundo, de vida boa e fácil, nos roube a essência de um evangelho profundo e concreto como esse mostrado pelo apóstolo Paulo, que norteava a seu jovem aprendiz Timóteo a viver, caminhar, se gastar, sofrer e até morrer se preciso for para o êxito do evangelho, e por sua vez, para a glória de Jesus Cristo.

Segui a paz com todos!