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segunda-feira, 23 de março de 2026

ÊXODO 20.13 - A PRESERVAÇÃO DA VIDA

02:38 Posted by JOÃO RICARDO FERREIRA No comments

 EXPOSIÇÃO BÍBLICA:

TEXTO BÍBLICO: ÊXODO 20.13

“A PRESERVAÇÃO DA VIDA” – I.

Rev. João Ricardo Ferreira de França.

INTRODUÇÃO:

            Estamos diante de um texto riquíssimo da Palavra de Deus. Ele é uma síntese da ideia da preservação da vida; pois, o mandamento visa a “proteção da vida humana” (DOUMA, 2016, p.243) o mandamento não apenas aponta para este aspecto da preservação, mas fala também sobre o Senhor de Toda a vida que é Deus! Ele criou todo o cosmo “para ser povoado de enxames de seres viventes” (FRAME,2013,p.651) veja-se Gênesis 1.20: “Disse também Deus: Povoem-se as águas de enxames de seres viventes; e voem as aves sobre a terra, sob o firmamento dos céus.”

            O termo hebraico “נֶ֣פֶשׁ חַיָּ֑ה  (nephesh hayah)" traduzida como “seres viventes” indica a ideia da totalidade da vida dos seres; o verbo produzir no original designa “produzir abundantemente” ou “enxames” a variedade da vida é algo vinda a existência pelo mandato divino, por isso, necessário se faz sua preservação.

            A segunda tábua da Lei visa regular as nossas relações sociais; ou seja, visa estabelecer o princípio do nosso amor para com o nosso próximo. Isto quer dizer que o sexto mandamento “diz respeito à vida de outras pessoas” (DOUMA, 2016, p.243), com quanto isto seja verdadeiro, mas não limita-se apenas à vida alheia, mas também a nossa vida, como o bem ensina o Catecismo maior de Westminster em sua questão 135.

            Mas, a Grenade questão é o que este mandamento nos ensina de fato? O que podemos aprender com este mandamento da santa Lei de Deus?

I – SOMOS CHAMADOS A RESPEITAR A VIDA.

            Notemos que o mandamento começa com “Não”, mais uma vez esta palavra aparece diante de nós, sabemos que se trata de um adverbio de negação, pois, o advérbio hebraico לֹא (lō’), em Êxodo 20:13, ultrapassa a função de simples negação e assume caráter normativo e absoluto. Diferente de אַל (’al), que expressa proibições pontuais, lō’ estabelece um princípio duradouro e universal, especialmente quando combinado com o verbo no imperfeito, como em לֹא תִּרְצָח (lō’ tira). Essa construção não indica apenas uma ordem momentânea, mas uma proibição contínua e estrutural dentro da aliança.

            Israel é chamado a respeitar a vida! Toda a forma de vida deve ser honrada e respeitada, por exemplo, os animais abatidos para nossa manutenção física e isto o fazemos não meramente por uma necessidade biológica, mas por que pós-dilúvio “Deus deu permissão para comer a carne deles” (Gn. 9.3) (DOUMA, 2016, p.243)

            Devemos lembrar que o próprio criador trata toda criação viva (plantas e animais) conforme aprendemos lendo o Salmos 104.11-30; Mateus 6.26-30. Provérbios 12.10 alerta-nos para o devido cuidado dos animais!

            O que quer dizer aqui: “Não matarás?” O termo aqui não abrange todo o tipo de morte ou ato de matar. O mandamento “não está proibindo toda morte, mas especificamente o pecado do assassinato” (SMITH, 1990, vol.II, p.642). Isto assegura-nos que a melhor tradução para o termo hebraico “תִּרְצָֽ֖ח (thiretsah)” é “assassinar”, ou seja, lida com a morte premeditada, planejada.

ENSINOS:
1. A soberania de Deus –
Aqui aprendemos que Deus o agente soberano desse mundo e traz a vida à existência.

2. Mordomia ambiental – Este mandamento nos ensina a cuidar da vida com respeito e dignidade, pois, somos desafiados pela Lei de Deus a “tratar de modo mais sábio as plantas e os animais. [...] O desmatamento e a exploração irresponsável do solo para o plantio tem deixado inférteis grandes regiões” (DOUMA, 2016, p.245).

APLICAÇÃO:

1.      Deus é senhor de toda a vida vivente neste mundo, reconhecer sua soberania sobre tudo, é a base de nossa comunhão e existência diante dele.

2.     Somos mordomos da criação nosso papel é cuidar para que toda vida criada por Deus seja adequadamente preservada.

II – QUAIS DEVERES SÃO EXIGIDOS NESTE MANDAMENTO?

            O Catecismo Maior em sua questão 135 faz exatamente esse questionamento Morton Smith (1990) na lata diz que este “mandamento obviamente requer a preservação da vida” (p.642); a linha demarcadora dos deveres que são exigido é a preservação da vida. Podemos categorizar os deveres na seguinte estrutura:

a.     Devemos empregar todos os esforços legítimos para preservar a nossa vida e a de outro:  

Isto envolve o cuidado com o nosso próprio corpo, conforme Paulo lembra-nos eEfésios 5.29: “Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja;” ou como bem ensina a ideia de preservar a vida em Mateus 10.23: “Quando, porém, vos perseguirem numa cidade, fugi para outra; porque em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel, até que venha o Filho do Homem.” Esta preservação se estende à vida de nosso próximo como ensina a Palavra de Deus em Salmos 82.4: “Socorrei o fraco e o necessitado; tirai doas mãos dos ímpios.”

b.     Devemos resistir a todos os pensamentos e propósitos, com o controle de todas as paixões, evitando todas as ocasiões, tentações e práticas que tendem a tirar injustamente a vida de alguém[...]:

O dever requerido neste mandamento está não apenas em ações externas, mas em atitudes internas, deve-se evitar todo o tipo de pensamento e propósito que nos leve a tirar a vida de alguém foi exatamente isso que o nosso Senhor ressaltou em Mateus 5.22 quando lidou com o sentimento de ira no coração dos homens! Irar-se contra alguém é cometer o pecado de assassinato! É claro existe uma ira legítima e não pecaminosa o apóstolo disse falou sobre isso em Efésios 4.26 “Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira”.

c.     Devemos preservar a vida “por meio de justa defesa dela contra a violência, por paciência em suportar a mão de Deus; o sossego mental, a alegria de espírito:

O sexto mandamento exige que devemos defender a vida contra a violência que ela sofre de forma injusta! O nosso catecismo, conforme temos visto, defende isso com clareza quando evoca o texto de 2º reis 21.9,10,19. Onde a triste história de Nabote é narrada como uma armação injusta e ninguém foi em sua defesa! Ter paciência em suportar as provações divinas Tiago nos alerta sobre isso no capítulo 5.8: “Sede vós também pacientes, e fortalecei os vossos corações, pois, a vinda do senhor se aproxima”.

Algumas pessoas se surpreendem quando descobrem que “a falta de alegria no coração” é uma violação ao sexto mandamento (FRAME, 2013, p.653).

d.     Devemos usar de modo sábio a “a comida, a bebida, os remédios, o sono, trabalho e o recreio”

O sexto mandamento exige de cada um de nós o uso adequadamente sábio dos dons que Deus nos tem dado por Deus; a palavra do senhor nos orienta quanto a nossa postura diante da alimentação desregrada, ela orienta a não estarmos entre os que comem e bebem de mais (Provérbios 23.20), pois, devemos comer aquilo que deve saciar a fome (Provérbios 25.16); o uso adequado e sóbrio dos remédios e da busca por saúde é o ensino claro na Palavra de Deus, Jesus declarou que os doentes carecem de médicos (Mateus 9.12) e o uso da medicação é também orientada na Escritura (Isaías 38.21);  o sono reparador deve ser procurado conforme aprendemos no salmo 127.2, será inúltil trabalhar a noite toda em busca do pão que Deus concede graciosamente aos seus!

É claro que este mandamento nos exige possuir pensamentos marcados de amor e dominados pela cordialidade, evitando a demora na reconciliação com alguém de algum conflito vivenciado, devolvendo a injustiça sofrida de modo desproporcional! Socorrer os necessitados e os aflitos é nosso dever diante deste mandamento.

ENSINOS:

  1. Preservação da vida como princípio central

O sexto mandamento exige proteger a própria vida e a do próximo.

  1. Abrangência interna e externa do mandamento

Inclui não apenas ações, mas também pensamentos, intenções e emoções.

  1. Legitimidade da defesa e postura diante do sofrimento

A vida deve ser defendida contra injustiça, com paciência nas provações.

  1. Mordomia equilibrada da vida e do corpo

Uso sábio de alimentação, descanso, trabalho, saúde e recursos.

APLICAÇÕES:

1.    Cuidar do corpo e da saúde como dever espiritual
Evitar excessos e negligência, valorizando a vida como dom de Deus.

2.    Controlar pensamentos e emoções
Combater a ira, o ódio e cultivar um coração puro.

3.    Promover a vida do próximo
Ajudar, proteger e socorrer os necessitados e oprimidos.

4.    Viver em paz, equilíbrio e reconciliação

5.     Buscar alegria, perdoar rapidamente e manter relacionamentos saudáveis.

III  - OS PECADOS CONTRA O SEXTO MANDAMENTO COMO EVITÁ-LOS?

            Antes de entrarmos neste tópico, devemos indagar – o que é pecado? O pecado é a transgressão da Lei ou ausência de conformidade com a Lei de Deus[1]. Já sabemos que o mandamento lida com a preservação da vida, chamamos isto de aspecto positivo da lei de Deus.

Mas, se seguirmos as regras de intepretação dos dez mandamentos conforme explanadas no Catecismo maior em sua questão 99 e na 4ª regra que diz “onde um dever é ordenado, o pecado contrário é proibido; e onde um pecado é proibido, o dever contrário é ordenando; assim, onde uma promessa está anexa, a promessa contrária está inclusa.” Então, na questão 136 do Catecismo Maior se estabelece ali os pecados que são proibidos neste mandamento.

            O Primeiro deles é certamente o suicídio. Um tema bastante recorrente, pois, o tirar a própria vida é atentar contra aquilo que o próprio Deus estabeleceu como sendo sua imagem (Gênesis 1.26-27); o segundo pecado é o tirar a vida de outro isto é qualificativo no mandamento, como lembra Smith (1990): “O pecado proibido não é todo tipo de morte, mas o pecado de assassinato”.(p.642). Não é todo ato de matar que é proibido no mandamento; o catecismo maior de Westminster em sua questão 136 abre exceções especificas:

1.      No ato da Justiça Pública;

2.     Na Guerra legítima;

3.     Na defesa necessária.

No primeiro caso o ato de justiça pública lidamos com o falamos dilema da pena de morte! Biblicamente falando a pena de morte é ensinada como algo legítimo nas Escrituras sagradas!

O estabelecimento da pena de morte fundamenta-se incialmente no conceito da imago dei. Isto se confirma em Gênesis 9.6: “Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a sua imagem.” A pena de morte é instituída porque a imagem de Deus deve ser preservada.

O segundo, caso em quem matar é permitido é na ação chamada de Guerra legítima. Aqui se destaca o fato de que o cristão pode mater sem incorrer em transgredir esse mandamento quando estiver em um conflito bélico numa guerra legítima.

E, por fim, a defesa necessária quando alguém atenta contra a nossa vida, e revidamos e a pessoa morre somos livres da culpa daquela morte. Inclusive isto é o que ensina Êxodo 22.2 “Se um ladrão for achado arrombando uma casa, e, sendo ferido, morrer, quem o feriu não será culpado do sangue”.

ENSINOS:

  1. Definição de pecado
    Pecado é a transgressão da Lei de Deus ou a falta de conformidade com ela.
  2. Princípio dos mandamentos
    Quando Deus ordena um dever, o pecado oposto é proibido — e vice-versa (regra do Catecismo).
  3. Pecados contra o mandamento
    Incluem principalmente:
    • Suicídio (tirar a própria vida)
    • Assassinato (tirar injustamente a vida de outro)
  4. Exceções bíblicas ao ato de matar
    O mandamento não proíbe toda morte, mas permite em casos específicos:
    • Justiça pública (pena de morte)
    • Guerra legítima
    • Defesa pessoal necessária

APLICAÇÕES:

1.      Valorizar a vida humana
Reconhecer que a vida é sagrada por refletir a imagem de Deus.

2.     Evitar atitudes de violência e ódio
Controlar emoções e ações que possam levar ao dano ao próximo.

3.     Respeitar a justiça e autoridade legítima
Entender que Deus estabelece limites e autoridades para preservar a ordem.

4.     Buscar preservação da vida em todas as situações
Agir sempre com o objetivo de proteger a própria vida e a dos outros.

CONCLUSÃO:

Diante de tudo o que foi exposto, o sexto mandamento revela-se muito mais profundo do que uma simples proibição de tirar a vida. Ele nos conduz a uma visão abrangente e santa da existência humana, mostrando que a vida é um dom precioso que procede de Deus e deve ser preservado, respeitado e promovido em todas as suas dimensões. Somos chamados não apenas a evitar o assassinato, mas a cultivar pensamentos, atitudes e ações que honrem a vida — tanto a nossa quanto a do próximo.

Este mandamento nos confronta com a seriedade do pecado, que pode se manifestar não só em atos extremos, mas também em sentimentos como ira, ódio e desprezo. Ao mesmo tempo, ele nos direciona a uma vida de responsabilidade, amor e cuidado, lembrando-nos de que somos mordomos da criação divina. Cuidar do corpo, promover a paz, socorrer o necessitado e viver com equilíbrio são expressões práticas de obediência a esta Lei.

Portanto, obedecer ao “Não matarás” é, em essência, viver para a glória de Deus por meio da valorização da vida. É refletir o caráter do Criador em nossas relações, buscando justiça, misericórdia e reconciliação. Que, pela graça de Deus, possamos viver de forma digna desse chamado, sendo instrumentos de preservação, cuidado e promoção da vida em um mundo marcado pela violência e pelo pecado.



[1] Veja-se o Catecismo Maior de Westminster questão 24

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A ARTE DA POESIA BÍBLICA NO ANTIGO TESTAMENTO.

 

A ARTE DA POESIA BÍBLICA NO ANTIGO TESTAMENTO.

Rev. João Ricardo Ferreira de França.*

INTRODUÇÃO

            A poesia uma gênero que também encontramos de forma sobja nas Escrituras. É verdade que a Bíblia como livro de literatura é marcada por uma variação de gêneros, todavia, o tipo de literatura que tem gerado algumas dificuldades na vida  de muitos  interpretes  é a poética. E a razão para isto é que a literatura poética foge em muitos casos da gramática hebraica.[1]

            A poesia é um recurso muito importante que usa estruturas condensadoras para expressar grandes estruturas. Kaiser lembra que este é o caso, por exemplo, de provérbios: “Os provérbios funcionam desta maneira porque condensam muita sabedoria em generalização relativamente ampla, que capta a essência de padrões que tendem a se repetir”[2], a poesia em linhas gerais faz a mesma coisa, especialmente a poesia hebraica.

            O estudo do gênero poético na Santa Palavra de Deus nos ajuda na compreensão melhor da Palavra do Senhor! Embora a narrativa “seja o gênero mais comum na Bíblia, a poesia não fica muito atrás”[3], isto é deveras interessante porque “um terço do Antigo Testamento foi escrito em forma poética”[4]. A Poesia mais conhecida da literatura bíblica é aquela que se encontra no livro dos Salmos; porém, existem outros textos que também são poéticos como os textos de sabedoria que se encontra na totalidade do Antigo Testamento.

I – OS SALMOS E ESTRUTURA DO PARALELISMO.

  O que é o Paralelismo?

“O paralelismo é universalmente reconhecido como o traço característico da poesia hebraica bíblica, embora também seja usado extensivamente em versos semíticos afins (principalmente acadianos), bem como em outros lugares”.[5], em termos práticos o paralelismo pode ser definido como “a rima das ideias”[6]

2.     Tipos de Paralelismo.

O paralelismo é apresentado nas Escrituras sob diversos aspectos, encontramos os tipos de parelelismo pode ser usado, “para dar uma classificação detalhada de seus subtipos: sinônimo, antitético, sintético  e assim por diante”[7], esse aspecto é importe porque é “a característica principal da poesia no Antigo Testamento”[8], diante disso pode-se dizer que o paralelismo “pode apresentar várias configurações, baseadas nos signos e na sua ordem.”[9]


A ideia do paralelismo também pode ser exemplificado de imagem refletida no espelho. Robert Alter expõe este conceito de forma clara: “Este paralelismo semântico é reforçado por um paralelismo sintático perfeito, a ordem das palavras em cada uma das meias-linhas espelhando exatamente a outra, com cada termo correspondente na mesma posição sintática.”[10]. Cássio Murilo diz que o melhor exemplo do paralelismo bíblico pode ser encontrado na ilustração de um      “objeto colocado diante de um espelho. A imagem refletida aparece invertida e é simétrica ao objeto”.[11] Observe o exemplo que segue[12]:

 

II – OS SALMOS E OS TIPOS DE PARALELISMO.

      Diante do que já foi estudado aqui se deve considerar neste momento os tipos de paralelismo presente na Escritura Sagrada.

1.     O paralelismo em si mesmo: mesmos signos, mesma sequência.

Observa-se Jeremias 51.27:

HEBRAICO

TRADUÇÃO

שְׂאוּ־נֵ֣ס בָּאָ֗רֶץ 

תִּקְע֙וּ שׁוֹפָ֤ר

Levantai um estandarte sobre a terra

Tocai um shofar entre as nações

 

2.     O Paralelismo Quiástico: mesmos signos, seqüência invertida.[1] Conforme vemos em Salmos 107.16

 

HEBRAICO

TRADUÇÃO

                   כִּֽי

־שִׁ֭בַּר דַּלְת֣וֹת נְחֹ֑שֶׁת

 וּבְרִיחֵ֖ בַרְזֶ֣ל גִּדֵּֽעַ׃

Pois

Ele quebrou as portas de Bronze,

E trancas de ferro despedaçou

 

3.     Paralelismo antitético no Salmos 85.11:

 

HEBRAICO

TRADUÇÃO

אֱ֭מֶת מֵאֶ֣רֶץ תִּצְמָ֑ח

                   וְ֜צֶ֗דֶק מִשָּׁמַ֥יִם נִשְׁקָֽף

 

A verdade (f) desde a terra (f) brotará

a justiça (m) desde o céu (m) descerá (f)).

Estes são alguns dos exemplos que podem ser encontrados no uso do paralelismo na poesia bíblica. Este recurso pode ajudar na compreensão mais adequada da Palavra de Deus. É muito comum na vasta literatura poética da Bíblia Sagrada encontrar-se o recurso do paralelismo.

Nos exemplos apresentado nota-se que ele possui várias configurações e pode ser usado para condensar grandes verdades da Palavra de Deus.

III – OS SALMOS E A ESTRUTURA HERMENÊUTICA HOMILÉTICA.

Já se considerou aspectos importantes na poesia hebraica. Porém para uma compreensão hermenêutica e homilética é necessário também seguir outros procedimentos importantes para se chegar a  ter uma visão estrutural da poesia e assim possamos ensinar e pregar neste tipo de literatura bíblica

  A Segmentação Textual.

Texturalmente é necessário segmentar um texto Bíblico para se proceder uma visão ampla de suas implicações hermenêuticas-exegéticas, daí para tanto, é importante compreender como se procede uma segmentação textual e sua definição basilar:

Enquanto na delimitação se lida com a determinação do começo e o fim da unidade textual, aqui o intérprete-exegeta lidará com a avaliação textual “sob o aspecto frasal, isto é, avaliar cada frase, orações e unidade expressiva que compõe o texto e explicitar como estas mesmas frases, e orações e unidades expressivas são articuladas entre si e dão ao texto fluência e significação”[1]

A pergunta é “como posso realizar esta tarefa”? O que é segmentar um texto? “Segmentar um texto é dividi-los em suas partes constituintes” porque ela é tão importante? É porque ela “nos leva a perceber distintamente cada uma de suas passagens e as relações existentes entre elas. Com isso, diminuímos o risco de passar por cima de dados importantes”[2]

 Cinco passos básicos são necessários para realizar a tarefa da segmentação textual. Cássio Murilo Dias da Silva, em outra obra, apresenta estes cinco passos:

1. Cada linha deve conter uma idéia completa.

2. Cada segmento, de modo geral, deve conter um único verbo (não necessariamente assim).

3. Os vocativos, imperativos, apostos e frases subordinadas ocupam um único segmento (ou linha)

4. A cada nova informação, principal ou secundária, deve ocupar um segmento. 5. Cada segmento deve ser indicado por uma letra arábica (quando for o Novo Testamento e no Antigo Testamento os segmentos passam a ser indicados por letras arábicas e gregas) tais como: a,b,c... Tal indicação começa a cada novo versículo[3].

No Salmos 117 quando se observa estes passos se obtém a estrutura textual mediante a segmentação do texto:



No texto está muito clara a estrutura hermenêutica-homilética, todavia, vale salientar que nem todos os textos seguem esta estrutura, especificamente quando se trata do último elemento – um novo convite – um exemplo claro disso é o salmo 100. (deve-se lembrar que se trata de um salmo de ações de Graças):



Este salmo apresenta os dois elementos fundamentais neste tipo de salmo: 1) O convite ao louvor; 2) e a razão para este convite. Todavia, não há um novo convite. Isto pode orientar ao professor, intérprete na exposição deste salmo, aplicando as realidades constituintes do convite ao louvor e sua concretização, e apresentar os motivos ou a razão para o louvor, isto só pode ser percebido pela segmentação textual.


* O autor é Ministro da Palavra e dos Sacramentos na Igreja Presbiteriana do Brasil. Atualmente é pastor na Igreja Presbiteriana de Riachão do Jacuípe – BA. Foi professor de Línguas Bíblicas (Hebraico e Grego) no Seminário Presbiteriano Fundamentalista do Brasil – SPFB (Recife), também foi professor de Hermenêutica, filosofia e Exegese de Atos no Seminário Presbiteriano Fundamentalista do Brasil (Patos – PB), também foi professor de Filosofia e Ética na Faculdade Regional de Riachão do Jacuípe – BA.; Atualmente é professor de Antigo Testamento no Instituto Teológico Reformado do Brasil (ITRB – Petrolina) e professor de Hermenêutica no Seminário Presbiteriano Fundamentalista do Brasil – SPFB (Rondônia). É também professor de Exegese do Antigo Testamento no Instituto Teológico Reformado do Brasil-Angola (ITRBA).

[1] Vale salientar que existe a licença poética que é universalmente aceita, pois, os poetas tem a liberdade de escrever, sem necessariamente ficarem atados às regras gramaticais do discurso direto.

[2] KAISER, JR, Walter C. Pregando em Ensinando a partir do Antigo Testamento. Rio de Janeiro: Ed. CPAD,2009, p.101.

[3] KAISER, JR, Walter C.; SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Ed. Cultura Cristã, 2009, p.83.

[4] Idem.

[5] WATSON. Wilfred G.E., Classical Hebrew Poetry a Guide to its Techniques, Sheffield (England): JSOT Press, 1986, p.114

[6] SILVA, Cássio Murilo da. Leia a Bíblia como Litaratura. São Paulo: Ed. Loyola, 2007, p.78.

[7] WATSON. Wilfred G.E., Classical Hebrew Poetry a Guide to its Techniques, Sheffield (England): JSOT Press, 1986, p.114

[8] KAISER, JR, Walter C.; SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Ed. Cultura Cristã, 2009, p.84

[9] SILVA, Cássio Murilo da. Leia a Bíblia como Litaratura. São Paulo: Ed. Loyola, 2007, p.78.

[10] ALTER, Robert. The Art of Biblical Poetry. New York: Basic Books, inc, Publishers, 2011, p.15

[11] SILVA, Cássio Murilo Dias da. Leia a Bíblia como Litaratura. São Paulo: Ed. Loyola, 2007, p.78.

[12] SILVA, Cássio Murilo Dias da. Metologia de Exegese Bíblica. São Paulo: Ed. Paulinas, 2000, p.304.