A ARTE DA POESIA BÍBLICA NO ANTIGO TESTAMENTO.
Rev. João Ricardo Ferreira de França.*
INTRODUÇÃO
A poesia
uma gênero que também encontramos de forma sobja nas Escrituras. É verdade que a Bíblia como livro de literatura
é marcada por uma variação de gêneros, todavia, o tipo de literatura que tem
gerado algumas dificuldades na vida de
muitos interpretes é a poética. E a razão para isto é que a
literatura poética foge em muitos casos da gramática hebraica.[1]
A poesia é um recurso muito importante que usa estruturas
condensadoras para expressar grandes estruturas. Kaiser lembra que este é o
caso, por exemplo, de provérbios: “Os provérbios funcionam desta maneira porque
condensam muita sabedoria em generalização relativamente ampla, que capta a
essência de padrões que tendem a se repetir”[2],
a poesia em linhas gerais faz a mesma coisa, especialmente a poesia hebraica.
O estudo do gênero poético na Santa Palavra de Deus nos
ajuda na compreensão melhor da Palavra do Senhor! Embora a narrativa “seja o
gênero mais comum na Bíblia, a poesia não fica muito atrás”[3],
isto é deveras interessante porque “um terço do Antigo Testamento foi escrito
em forma poética”[4]. A Poesia
mais conhecida da literatura bíblica é aquela que se encontra no livro dos
Salmos; porém, existem outros textos que também são poéticos como os textos de
sabedoria que se encontra na totalidade do Antigo Testamento.
I – OS SALMOS
E ESTRUTURA DO PARALELISMO.
O que é o Paralelismo?
“O paralelismo é universalmente reconhecido como o traço característico
da poesia hebraica bíblica, embora também seja usado extensivamente em versos
semíticos afins (principalmente acadianos), bem como em outros lugares”.[5],
em termos práticos o paralelismo pode ser definido como “a rima das ideias”[6]
O paralelismo é apresentado nas Escrituras sob diversos aspectos,
encontramos os tipos de parelelismo pode ser usado, “para dar uma classificação
detalhada de seus subtipos: sinônimo, antitético, sintético e assim por diante”[7],
esse aspecto é importe porque é “a característica principal da poesia no Antigo
Testamento”[8], diante
disso pode-se dizer que o paralelismo “pode apresentar várias configurações,
baseadas nos signos e na sua ordem.”[9]
II – OS SALMOS E OS TIPOS DE PARALELISMO.
Diante do que já foi estudado aqui se deve
considerar neste momento os tipos de paralelismo presente na Escritura Sagrada.
1.
O paralelismo em si mesmo: mesmos signos, mesma sequência.
Observa-se Jeremias 51.27:
|
HEBRAICO |
TRADUÇÃO |
|
שְׂאוּ־נֵ֣ס
בָּאָ֗רֶץ תִּקְע֙וּ שׁוֹפָ֤ר |
Levantai um estandarte sobre a terra Tocai um shofar entre as nações |
2.
O Paralelismo Quiástico: mesmos signos, seqüência invertida.[1]
Conforme vemos em Salmos 107.16
|
HEBRAICO |
TRADUÇÃO |
|
כִּֽי ־שִׁ֭בַּר דַּלְת֣וֹת נְחֹ֑שֶׁת וּבְרִיחֵ֖
בַרְזֶ֣ל גִּדֵּֽעַ׃ |
Pois Ele quebrou as portas de Bronze, E trancas
de ferro despedaçou
|
3.
Paralelismo antitético no Salmos 85.11:
|
HEBRAICO |
TRADUÇÃO |
|
אֱ֭מֶת מֵאֶ֣רֶץ
תִּצְמָ֑ח וְ֜צֶ֗דֶק מִשָּׁמַ֥יִם נִשְׁקָֽף
|
A verdade (f) desde a terra (f) brotará a justiça (m) desde o céu (m) descerá (f)). |
Estes são alguns
dos exemplos que podem ser encontrados no uso do paralelismo na poesia bíblica.
Este recurso pode ajudar na compreensão mais adequada da Palavra de Deus. É
muito comum na vasta literatura poética da Bíblia Sagrada encontrar-se o
recurso do paralelismo.
Nos exemplos apresentado nota-se que
ele possui várias configurações e pode ser usado para condensar grandes
verdades da Palavra de Deus.
III – OS SALMOS
E A ESTRUTURA HERMENÊUTICA HOMILÉTICA.
Já se considerou aspectos importantes
na poesia hebraica. Porém para uma compreensão hermenêutica e homilética é
necessário também seguir outros procedimentos importantes para se chegar a ter uma visão estrutural da poesia e assim
possamos ensinar e pregar neste tipo de literatura bíblica
A
Segmentação Textual.
Texturalmente é necessário segmentar
um texto Bíblico para se proceder uma visão ampla de suas implicações
hermenêuticas-exegéticas, daí para tanto, é importante compreender como se
procede uma segmentação textual e sua definição basilar:
Enquanto na delimitação se lida com a determinação do começo e o fim da
unidade textual, aqui o intérprete-exegeta lidará com a avaliação textual “sob
o aspecto frasal, isto é, avaliar cada frase, orações e unidade expressiva que
compõe o texto e explicitar como estas mesmas frases, e orações e unidades
expressivas são articuladas entre si e dão ao texto fluência e significação”[1]
A pergunta é “como posso realizar esta tarefa”? O que é segmentar um
texto? “Segmentar um texto é dividi-los em suas partes constituintes” porque
ela é tão importante? É porque ela “nos leva a perceber distintamente cada uma
de suas passagens e as relações existentes entre elas. Com isso, diminuímos o
risco de passar por cima de dados importantes”[2]
Cinco passos básicos são
necessários para realizar a tarefa da segmentação textual. Cássio Murilo Dias
da Silva, em outra obra, apresenta estes cinco passos:
1.
Cada linha deve conter uma idéia completa.
2.
Cada segmento, de modo geral, deve conter um único verbo (não necessariamente
assim).
3.
Os vocativos, imperativos, apostos e frases subordinadas ocupam um único
segmento (ou linha)
No Salmos 117 quando se observa estes
passos se obtém a estrutura textual mediante a segmentação do texto:
~yI+AG-lK'
WhWxªB.v;÷
`~yMi(auh'-lK'
ADªs.x; Wnyle’[' rb:Üg"¬ yK
Iî ~l'ªA[l.
hw"ïhy>-tm,a/w<)
`Hy")-Wll.h |
1.aa
ab
ba
bb
2.aa
ab
ag |
Convite ao louvorLOUVAI o SENHOR
Nações todas
Exaltai-o
Povos todos.
Motivação - motivo
Porque é
forte por nós seu amor,
E a fidelidade do SENHOR é para sempre. Novo Convite Aleluia! |
No texto está muito clara a estrutura hermenêutica-homilética, todavia, vale salientar que nem todos os textos seguem esta estrutura, especificamente quando se trata do último elemento – um novo convite – um exemplo claro disso é o salmo 100. (deve-se lembrar que se trata de um salmo de ações de Graças):
|
|
|
|
Convite ao Louvor: |
|
hw"©hyl;÷ W[yrIïh;*;: |
|
1aa |
CELEBRAI com júbilo ao SENHOR, |
|
`#r<a'(h'-lK' |
|
ab |
todas as terras.
|
|
hx'_m.fiB. hw"åhy>-ta, Wdåb.[i 2 |
|
2.aa |
2 Servi ao SENHOR com alegria; |
|
`hn")n"r>Bi
wyn"©p'l.÷ WaBoï |
|
ab |
e entrai diante dele com canto. |
|
é~yhiîl{ña/ aWhÜ
hw"hy>-yKi( W[ªD> 3 |
|
3.aa |
3 Sabei que o SENHOR é Deus; |
|
Wnf'['â-aWh) |
|
ab |
foi ele que nos fez, |
|
Wnx.n:+a] ÎAlåw>Ð ([1]al{w>a)
|
|
bg |
e não nós a nós mesmos; |
|
AMª[;÷ |
|
cd |
somos povo seu |
|
`At*y[ir>m; !acoåw> |
|
de |
e ovelhas do seu pasto.
|
|
hd"ªAtB Ÿwyr"’['v. WaBoÜ 4 |
|
4.aa |
4 Entrai pelas portas dele com gratidão, |
|
hL'_hit.Bi wyt'îrocex]. |
|
a.b |
e em seus átrios com louvor; |
|
Al©÷-WdAh)]. |
|
c.g |
louvai-o, |
|
`Am*v. Wkïr]B' |
|
d.d |
bendizei o nome |
|
hA"hy>â bAjå-yKi 5 |
|
5.aa |
Motivação
para o Louvor: 5 Porque bom é o SENHOR, |
|
AD=s.x; ~l'äA[l. |
|
a.b |
e eterna a sua misericórdia; |
|
`At*n"Wma/ rdoªw"÷ rDoð-d[;w |
|
b.g |
e de geração em geração permanece a sua verdade dura
|
Este salmo apresenta os dois elementos fundamentais neste tipo de salmo: 1) O convite ao louvor; 2) e a razão para este convite. Todavia, não há um novo convite. Isto pode orientar ao professor, intérprete na exposição deste salmo, aplicando as realidades constituintes do convite ao louvor e sua concretização, e apresentar os motivos ou a razão para o louvor, isto só pode ser percebido pela segmentação textual.
*
O autor é Ministro da Palavra e dos Sacramentos na Igreja Presbiteriana do
Brasil. Atualmente é pastor na Igreja Presbiteriana de Riachão do Jacuípe – BA.
Foi professor de Línguas Bíblicas (Hebraico e Grego) no Seminário Presbiteriano
Fundamentalista do Brasil – SPFB (Recife), também foi professor de
Hermenêutica, filosofia e Exegese de Atos no Seminário Presbiteriano
Fundamentalista do Brasil (Patos – PB), também foi professor de Filosofia e
Ética na Faculdade Regional de Riachão do Jacuípe – BA.; Atualmente é professor
de Antigo Testamento no Instituto Teológico Reformado do Brasil (ITRB –
Petrolina) e professor de Hermenêutica no Seminário Presbiteriano
Fundamentalista do Brasil – SPFB (Rondônia). É também professor de Exegese do
Antigo Testamento no Instituto Teológico Reformado do Brasil-Angola (ITRBA).
[1] Vale
salientar que existe a licença poética que é universalmente aceita, pois, os
poetas tem a liberdade de escrever, sem necessariamente ficarem atados às
regras gramaticais do discurso direto.
[2]
KAISER, JR, Walter C. Pregando em Ensinando a partir do Antigo Testamento. Rio
de Janeiro: Ed. CPAD,2009, p.101.
[3]
KAISER, JR, Walter C.; SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São
Paulo: Ed. Cultura Cristã,
2009, p.83.
[4] Idem.
[5] WATSON. Wilfred G.E., Classical
Hebrew Poetry a Guide to its Techniques, Sheffield
(England): JSOT Press, 1986, p.114
[6] SILVA,
Cássio Murilo da. Leia a Bíblia como Litaratura. São Paulo: Ed. Loyola,
2007, p.78.
[7] WATSON. Wilfred G.E., Classical
Hebrew Poetry a Guide to its Techniques, Sheffield
(England): JSOT Press, 1986, p.114
[8]
KAISER, JR, Walter C.; SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São
Paulo: Ed. Cultura Cristã, 2009, p.84
[9] SILVA,
Cássio Murilo da. Leia a Bíblia como Litaratura. São Paulo: Ed. Loyola,
2007, p.78.
[10] ALTER, Robert. The Art of Biblical Poetry. New York: Basic Books, inc, Publishers,
2011, p.15
[11]
SILVA, Cássio Murilo Dias da. Leia a Bíblia como Litaratura. São Paulo:
Ed. Loyola, 2007, p.78.
[12] SILVA,
Cássio Murilo Dias da. Metologia de Exegese Bíblica. São Paulo: Ed.
Paulinas, 2000, p.304.
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