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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A ARTE DA POESIA BÍBLICA NO ANTIGO TESTAMENTO.

 

A ARTE DA POESIA BÍBLICA NO ANTIGO TESTAMENTO.

Rev. João Ricardo Ferreira de França.*

INTRODUÇÃO

            A poesia uma gênero que também encontramos de forma sobja nas Escrituras. É verdade que a Bíblia como livro de literatura é marcada por uma variação de gêneros, todavia, o tipo de literatura que tem gerado algumas dificuldades na vida  de muitos  interpretes  é a poética. E a razão para isto é que a literatura poética foge em muitos casos da gramática hebraica.[1]

            A poesia é um recurso muito importante que usa estruturas condensadoras para expressar grandes estruturas. Kaiser lembra que este é o caso, por exemplo, de provérbios: “Os provérbios funcionam desta maneira porque condensam muita sabedoria em generalização relativamente ampla, que capta a essência de padrões que tendem a se repetir”[2], a poesia em linhas gerais faz a mesma coisa, especialmente a poesia hebraica.

            O estudo do gênero poético na Santa Palavra de Deus nos ajuda na compreensão melhor da Palavra do Senhor! Embora a narrativa “seja o gênero mais comum na Bíblia, a poesia não fica muito atrás”[3], isto é deveras interessante porque “um terço do Antigo Testamento foi escrito em forma poética”[4]. A Poesia mais conhecida da literatura bíblica é aquela que se encontra no livro dos Salmos; porém, existem outros textos que também são poéticos como os textos de sabedoria que se encontra na totalidade do Antigo Testamento.

I – OS SALMOS E ESTRUTURA DO PARALELISMO.

  O que é o Paralelismo?

“O paralelismo é universalmente reconhecido como o traço característico da poesia hebraica bíblica, embora também seja usado extensivamente em versos semíticos afins (principalmente acadianos), bem como em outros lugares”.[5], em termos práticos o paralelismo pode ser definido como “a rima das ideias”[6]

2.     Tipos de Paralelismo.

O paralelismo é apresentado nas Escrituras sob diversos aspectos, encontramos os tipos de parelelismo pode ser usado, “para dar uma classificação detalhada de seus subtipos: sinônimo, antitético, sintético  e assim por diante”[7], esse aspecto é importe porque é “a característica principal da poesia no Antigo Testamento”[8], diante disso pode-se dizer que o paralelismo “pode apresentar várias configurações, baseadas nos signos e na sua ordem.”[9]


A ideia do paralelismo também pode ser exemplificado de imagem refletida no espelho. Robert Alter expõe este conceito de forma clara: “Este paralelismo semântico é reforçado por um paralelismo sintático perfeito, a ordem das palavras em cada uma das meias-linhas espelhando exatamente a outra, com cada termo correspondente na mesma posição sintática.”[10]. Cássio Murilo diz que o melhor exemplo do paralelismo bíblico pode ser encontrado na ilustração de um      “objeto colocado diante de um espelho. A imagem refletida aparece invertida e é simétrica ao objeto”.[11] Observe o exemplo que segue[12]:

 

II – OS SALMOS E OS TIPOS DE PARALELISMO.

      Diante do que já foi estudado aqui se deve considerar neste momento os tipos de paralelismo presente na Escritura Sagrada.

1.     O paralelismo em si mesmo: mesmos signos, mesma sequência.

Observa-se Jeremias 51.27:

HEBRAICO

TRADUÇÃO

שְׂאוּ־נֵ֣ס בָּאָ֗רֶץ 

תִּקְע֙וּ שׁוֹפָ֤ר

Levantai um estandarte sobre a terra

Tocai um shofar entre as nações

 

2.     O Paralelismo Quiástico: mesmos signos, seqüência invertida.[1] Conforme vemos em Salmos 107.16

 

HEBRAICO

TRADUÇÃO

                   כִּֽי

־שִׁ֭בַּר דַּלְת֣וֹת נְחֹ֑שֶׁת

 וּבְרִיחֵ֖ בַרְזֶ֣ל גִּדֵּֽעַ׃

Pois

Ele quebrou as portas de Bronze,

E trancas de ferro despedaçou

 

3.     Paralelismo antitético no Salmos 85.11:

 

HEBRAICO

TRADUÇÃO

אֱ֭מֶת מֵאֶ֣רֶץ תִּצְמָ֑ח

                   וְ֜צֶ֗דֶק מִשָּׁמַ֥יִם נִשְׁקָֽף

 

A verdade (f) desde a terra (f) brotará

a justiça (m) desde o céu (m) descerá (f)).

Estes são alguns dos exemplos que podem ser encontrados no uso do paralelismo na poesia bíblica. Este recurso pode ajudar na compreensão mais adequada da Palavra de Deus. É muito comum na vasta literatura poética da Bíblia Sagrada encontrar-se o recurso do paralelismo.

Nos exemplos apresentado nota-se que ele possui várias configurações e pode ser usado para condensar grandes verdades da Palavra de Deus.

III – OS SALMOS E A ESTRUTURA HERMENÊUTICA HOMILÉTICA.

Já se considerou aspectos importantes na poesia hebraica. Porém para uma compreensão hermenêutica e homilética é necessário também seguir outros procedimentos importantes para se chegar a  ter uma visão estrutural da poesia e assim possamos ensinar e pregar neste tipo de literatura bíblica

  A Segmentação Textual.

Texturalmente é necessário segmentar um texto Bíblico para se proceder uma visão ampla de suas implicações hermenêuticas-exegéticas, daí para tanto, é importante compreender como se procede uma segmentação textual e sua definição basilar:

Enquanto na delimitação se lida com a determinação do começo e o fim da unidade textual, aqui o intérprete-exegeta lidará com a avaliação textual “sob o aspecto frasal, isto é, avaliar cada frase, orações e unidade expressiva que compõe o texto e explicitar como estas mesmas frases, e orações e unidades expressivas são articuladas entre si e dão ao texto fluência e significação”[1]

A pergunta é “como posso realizar esta tarefa”? O que é segmentar um texto? “Segmentar um texto é dividi-los em suas partes constituintes” porque ela é tão importante? É porque ela “nos leva a perceber distintamente cada uma de suas passagens e as relações existentes entre elas. Com isso, diminuímos o risco de passar por cima de dados importantes”[2]

 Cinco passos básicos são necessários para realizar a tarefa da segmentação textual. Cássio Murilo Dias da Silva, em outra obra, apresenta estes cinco passos:

1. Cada linha deve conter uma idéia completa.

2. Cada segmento, de modo geral, deve conter um único verbo (não necessariamente assim).

3. Os vocativos, imperativos, apostos e frases subordinadas ocupam um único segmento (ou linha)

4. A cada nova informação, principal ou secundária, deve ocupar um segmento. 5. Cada segmento deve ser indicado por uma letra arábica (quando for o Novo Testamento e no Antigo Testamento os segmentos passam a ser indicados por letras arábicas e gregas) tais como: a,b,c... Tal indicação começa a cada novo versículo[3].

No Salmos 117 quando se observa estes passos se obtém a estrutura textual mediante a segmentação do texto:

  

hw"hy>â-ta, Wlål.h;(

 

~yI+AG-lK'

 

 

WhWxªB.v;÷

 

`~yMi(auh'-lK'

 

 

ADªs.x; Wnyle’[' rb:Üg"¬ yK

 

 

~l'ªA[l. hw"ïhy>-tm,a/w<)

 

      `Hy")-Wll.h

1.aa

 

ab

 

ba

 

bb

 

 

 

 

2.aa

 

 

ab

 

ag   

Convite ao louvor

LOUVAI o SENHOR

 

 Nações todas

 

 

Exaltai-o

 

 Povos todos.

 

    Motivação - motivo

 

 

Porque é forte por nós seu amor,

 

 

 E a fidelidade do SENHOR é para sempre.

  Novo Convite

Aleluia!                                          

No texto está muito clara a estrutura hermenêutica-homilética, todavia, vale salientar que nem todos os textos seguem esta estrutura, especificamente quando se trata do último elemento – um novo convite – um exemplo claro disso é o salmo 100. (deve-se lembrar que se trata de um salmo de ações de Graças):

 

 

 

Convite ao Louvor:

hw"©hyl;÷ W[yrIïh;*;:

 

1aa

CELEBRAI com júbilo ao SENHOR,

`#r<a'(h'-lK'

 

ab

todas as terras. 

hx'_m.fiB. hw"åhy>-ta, Wdåb.[i 2

 

2.aa

2 Servi ao SENHOR com alegria;

`hn")n"r>Bi wyn"©p'l.÷ WaBoï

 

ab

e entrai diante dele com canto. 

é~yhiîl{ña/ aWhÜ hw"hy>-yKi( W[ªD> 3

 

3.aa

3 Sabei que o SENHOR é Deus;

Wnf'['â-aWh)

 

ab

foi ele que nos fez,

Wnx.n:+a] ÎAlåw>Ð ([1]al{w>a) 

 

bg

e não nós a nós mesmos;

AMª[;÷

 

cd

somos povo seu

`At*y[ir>m; !acoåw>

 

de

e ovelhas do seu pasto. 

hd"ªAtB Ÿwyr"’['v. WaBoÜ 4

 

4.aa

4 Entrai pelas portas dele com gratidão,

hL'_hit.Bi wyt'îrocex].

 

a.b

e em seus átrios com louvor;

Al©÷-WdAh)].

 

c.g

louvai-o,

`Am*v. Wkïr]B'

 

d.d

bendizei o nome

 hA"hy>â bAjå-yKi 5

 

 

5.aa

 Motivação para o Louvor:

5 Porque bom é o SENHOR,

AD=s.x; ~l'äA[l.

 

a.b

e eterna a sua misericórdia;

`At*n"Wma/ rdoªw"÷ rDoð-d[;w

 

b.g

e de geração em geração permanece a sua verdade dura  

 

Este salmo apresenta os dois elementos fundamentais neste tipo de salmo: 1) O convite ao louvor; 2) e a razão para este convite. Todavia, não há um novo convite. Isto pode orientar ao professor, intérprete na exposição deste salmo, aplicando as realidades constituintes do convite ao louvor e sua concretização, e apresentar os motivos ou a razão para o louvor, isto só pode ser percebido pela segmentação textual.


* O autor é Ministro da Palavra e dos Sacramentos na Igreja Presbiteriana do Brasil. Atualmente é pastor na Igreja Presbiteriana de Riachão do Jacuípe – BA. Foi professor de Línguas Bíblicas (Hebraico e Grego) no Seminário Presbiteriano Fundamentalista do Brasil – SPFB (Recife), também foi professor de Hermenêutica, filosofia e Exegese de Atos no Seminário Presbiteriano Fundamentalista do Brasil (Patos – PB), também foi professor de Filosofia e Ética na Faculdade Regional de Riachão do Jacuípe – BA.; Atualmente é professor de Antigo Testamento no Instituto Teológico Reformado do Brasil (ITRB – Petrolina) e professor de Hermenêutica no Seminário Presbiteriano Fundamentalista do Brasil – SPFB (Rondônia). É também professor de Exegese do Antigo Testamento no Instituto Teológico Reformado do Brasil-Angola (ITRBA).

[1] Vale salientar que existe a licença poética que é universalmente aceita, pois, os poetas tem a liberdade de escrever, sem necessariamente ficarem atados às regras gramaticais do discurso direto.

[2] KAISER, JR, Walter C. Pregando em Ensinando a partir do Antigo Testamento. Rio de Janeiro: Ed. CPAD,2009, p.101.

[3] KAISER, JR, Walter C.; SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Ed. Cultura Cristã, 2009, p.83.

[4] Idem.

[5] WATSON. Wilfred G.E., Classical Hebrew Poetry a Guide to its Techniques, Sheffield (England): JSOT Press, 1986, p.114

[6] SILVA, Cássio Murilo da. Leia a Bíblia como Litaratura. São Paulo: Ed. Loyola, 2007, p.78.

[7] WATSON. Wilfred G.E., Classical Hebrew Poetry a Guide to its Techniques, Sheffield (England): JSOT Press, 1986, p.114

[8] KAISER, JR, Walter C.; SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Ed. Cultura Cristã, 2009, p.84

[9] SILVA, Cássio Murilo da. Leia a Bíblia como Litaratura. São Paulo: Ed. Loyola, 2007, p.78.

[10] ALTER, Robert. The Art of Biblical Poetry. New York: Basic Books, inc, Publishers, 2011, p.15

[11] SILVA, Cássio Murilo Dias da. Leia a Bíblia como Litaratura. São Paulo: Ed. Loyola, 2007, p.78.

[12] SILVA, Cássio Murilo Dias da. Metologia de Exegese Bíblica. São Paulo: Ed. Paulinas, 2000, p.304.