EXPOSIÇÃO BÍBLICA:
TEXTO BÍBLICO: ÊXODO 20.13
“A PRESERVAÇÃO DA VIDA” – I.
Rev. João
Ricardo Ferreira de França.
INTRODUÇÃO:
Estamos
diante de um texto riquíssimo da Palavra de Deus. Ele é uma síntese da ideia da
preservação da vida; pois, o mandamento visa a “proteção da vida humana”
(DOUMA, 2016, p.243) o mandamento não apenas aponta para este aspecto da
preservação, mas fala também sobre o Senhor de Toda a vida que é Deus! Ele
criou todo o cosmo “para ser povoado de enxames de seres viventes” (FRAME,2013,p.651)
veja-se Gênesis 1.20: “Disse também Deus: Povoem-se as águas de enxames de
seres viventes; e voem as aves sobre a terra, sob o firmamento dos
céus.”
O
termo hebraico “נֶ֣פֶשׁ
חַיָּ֑ה (nephesh hayah)" traduzida como “seres viventes” indica a ideia da totalidade da vida dos seres; o verbo
produzir no original designa “produzir abundantemente” ou “enxames” a variedade
da vida é algo vinda a existência pelo mandato divino, por isso, necessário se
faz sua preservação.
A
segunda tábua da Lei visa regular as nossas relações sociais; ou seja, visa
estabelecer o princípio do nosso amor para com o nosso próximo. Isto quer dizer
que o sexto mandamento “diz respeito à vida de outras pessoas” (DOUMA, 2016,
p.243), com quanto isto seja verdadeiro, mas não limita-se apenas à vida
alheia, mas também a nossa vida, como o bem ensina o Catecismo maior de
Westminster em sua questão 135.
Mas,
a Grenade questão é o que este mandamento nos ensina de fato? O que podemos
aprender com este mandamento da santa Lei de Deus?
I – SOMOS CHAMADOS A RESPEITAR A VIDA.
Notemos
que o mandamento começa com “Não”, mais uma vez esta palavra aparece diante de
nós, sabemos que se trata de um adverbio de negação, pois, o advérbio hebraico לֹא (lō’), em Êxodo 20:13, ultrapassa a função de simples
negação e assume caráter normativo e absoluto. Diferente de אַל (’al), que expressa proibições pontuais, lō’
estabelece um princípio duradouro e universal, especialmente quando combinado
com o verbo no imperfeito, como em לֹא תִּרְצָח (lō’ tirṣaḥ). Essa construção não indica apenas uma ordem
momentânea, mas uma proibição contínua e estrutural dentro da aliança.
Israel
é chamado a respeitar a vida! Toda a forma de vida deve ser honrada e
respeitada, por exemplo, os animais abatidos para nossa manutenção física e
isto o fazemos não meramente por uma necessidade biológica, mas por que
pós-dilúvio “Deus deu permissão para comer a carne deles” (Gn. 9.3) (DOUMA,
2016, p.243)
Devemos
lembrar que o próprio criador trata toda criação viva (plantas e animais)
conforme aprendemos lendo o Salmos 104.11-30; Mateus 6.26-30. Provérbios 12.10
alerta-nos para o devido cuidado dos animais!
O que
quer dizer aqui: “Não matarás?” O termo aqui não abrange todo o tipo de morte
ou ato de matar. O mandamento “não está proibindo toda morte, mas
especificamente o pecado do assassinato” (SMITH, 1990, vol.II, p.642). Isto
assegura-nos que a melhor tradução para o termo hebraico “תִּרְצָֽ֖ח (thiretsah)” é “assassinar”, ou seja, lida com a morte
premeditada, planejada.
ENSINOS:
1. A soberania de Deus – Aqui
aprendemos que Deus o agente soberano desse mundo e traz a vida à existência.
2. Mordomia ambiental – Este mandamento nos ensina a cuidar da vida com
respeito e dignidade, pois, somos desafiados pela Lei de Deus a “tratar de modo
mais sábio as plantas e os animais. [...] O desmatamento e a exploração
irresponsável do solo para o plantio tem deixado inférteis grandes regiões”
(DOUMA, 2016, p.245).
APLICAÇÃO:
1.
Deus é senhor de toda a vida vivente neste mundo, reconhecer sua
soberania sobre tudo, é a base de nossa comunhão e existência diante dele.
2.
Somos mordomos da criação nosso papel é cuidar para que toda vida criada
por Deus seja adequadamente preservada.
II – QUAIS DEVERES SÃO EXIGIDOS NESTE MANDAMENTO?
O
Catecismo Maior em sua questão 135 faz exatamente esse questionamento Morton
Smith (1990) na lata diz que este “mandamento obviamente requer a preservação
da vida” (p.642); a linha demarcadora dos deveres que são exigido é a
preservação da vida. Podemos categorizar os deveres na seguinte estrutura:
a. Devemos empregar todos os esforços legítimos para preservar a nossa vida e a de outro:
Isto envolve o cuidado com o nosso próprio corpo, conforme Paulo lembra-nos eEfésios 5.29: “Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja;” ou como bem ensina a ideia de preservar a vida em Mateus 10.23: “Quando, porém, vos perseguirem numa cidade, fugi para outra; porque em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel, até que venha o Filho do Homem.” Esta preservação se estende à vida de nosso próximo como ensina a Palavra de Deus em Salmos 82.4: “Socorrei o fraco e o necessitado; tirai doas mãos dos ímpios.”
b.
Devemos resistir a todos os pensamentos e propósitos, com o
controle de todas as paixões, evitando todas as ocasiões, tentações e práticas
que tendem a tirar injustamente a vida de alguém[...]:
O dever requerido neste mandamento está
não apenas em ações externas, mas em atitudes internas, deve-se evitar todo o
tipo de pensamento e propósito que nos leve a tirar a vida de alguém foi
exatamente isso que o nosso Senhor ressaltou em Mateus 5.22 quando lidou com o
sentimento de ira no coração dos homens! Irar-se contra alguém é cometer o
pecado de assassinato! É claro existe uma ira legítima e não pecaminosa o
apóstolo disse falou sobre isso em Efésios 4.26 “Irai-vos e não pequeis; não se
ponha o sol sobre a vossa ira”.
c.
Devemos preservar a vida “por meio de justa defesa dela contra a
violência, por paciência em suportar a mão de Deus; o sossego mental, a alegria
de espírito:
O sexto mandamento exige que devemos
defender a vida contra a violência que ela sofre de forma injusta! O nosso
catecismo, conforme temos visto, defende isso com clareza quando evoca o texto
de 2º reis 21.9,10,19. Onde a triste história de Nabote é narrada como uma
armação injusta e ninguém foi em sua defesa! Ter paciência em suportar as
provações divinas Tiago nos alerta sobre isso no capítulo 5.8: “Sede vós também
pacientes, e fortalecei os vossos corações, pois, a vinda do senhor se
aproxima”.
Algumas pessoas se surpreendem quando
descobrem que “a falta de alegria no coração” é uma violação ao sexto
mandamento (FRAME, 2013, p.653).
d.
Devemos usar de modo sábio a “a comida, a bebida, os remédios, o sono,
trabalho e o recreio”
O sexto mandamento exige de cada um de
nós o uso adequadamente sábio dos dons que Deus nos tem dado por Deus; a
palavra do senhor nos orienta quanto a nossa postura diante da alimentação
desregrada, ela orienta a não estarmos entre os que comem e bebem de mais
(Provérbios 23.20), pois, devemos comer aquilo que deve saciar a fome
(Provérbios 25.16); o uso adequado e sóbrio dos remédios e da busca por saúde é
o ensino claro na Palavra de Deus, Jesus declarou que os doentes carecem de médicos
(Mateus 9.12) e o uso da medicação é também orientada na Escritura (Isaías
38.21); o sono reparador deve ser
procurado conforme aprendemos no salmo 127.2, será inúltil trabalhar a noite
toda em busca do pão que Deus concede graciosamente aos seus!
É claro que este mandamento nos exige
possuir pensamentos marcados de amor e dominados pela cordialidade, evitando a
demora na reconciliação com alguém de algum conflito vivenciado, devolvendo a
injustiça sofrida de modo desproporcional! Socorrer os necessitados e os aflitos
é nosso dever diante deste mandamento.
ENSINOS:
- Preservação
da vida como princípio central
O sexto mandamento exige proteger a
própria vida e a do próximo.
- Abrangência
interna e externa do mandamento
Inclui não apenas ações, mas também
pensamentos, intenções e emoções.
- Legitimidade
da defesa e postura diante do sofrimento
A vida deve ser defendida contra
injustiça, com paciência nas provações.
- Mordomia
equilibrada da vida e do corpo
Uso sábio de alimentação, descanso,
trabalho, saúde e recursos.
APLICAÇÕES:
1.
Cuidar do
corpo e da saúde como dever espiritual
Evitar excessos e negligência, valorizando a vida como dom de Deus.
2.
Controlar
pensamentos e emoções
Combater a ira, o ódio e cultivar um coração puro.
3.
Promover a
vida do próximo
Ajudar, proteger e socorrer os necessitados e oprimidos.
4.
Viver em
paz, equilíbrio e reconciliação
5.
Buscar
alegria, perdoar rapidamente e manter relacionamentos saudáveis.
III - OS
PECADOS CONTRA O SEXTO MANDAMENTO COMO EVITÁ-LOS?
Antes
de entrarmos neste tópico, devemos indagar – o que é pecado? O pecado é a transgressão
da Lei ou ausência de conformidade com a Lei de Deus[1].
Já sabemos que o mandamento lida com a preservação da vida, chamamos isto de aspecto
positivo da lei de Deus.
Mas, se seguirmos as regras de
intepretação dos dez mandamentos conforme explanadas no Catecismo maior em sua
questão 99 e na 4ª regra que diz “onde um dever é ordenado, o pecado contrário
é proibido; e onde um pecado é proibido, o dever contrário é ordenando; assim,
onde uma promessa está anexa, a promessa contrária está inclusa.” Então, na questão
136 do Catecismo Maior se estabelece ali os pecados que são proibidos neste
mandamento.
O Primeiro
deles é certamente o suicídio. Um tema bastante recorrente, pois, o tirar a própria
vida é atentar contra aquilo que o próprio Deus estabeleceu como sendo sua
imagem (Gênesis 1.26-27); o segundo pecado é o tirar a vida de outro isto é qualificativo
no mandamento, como lembra Smith (1990): “O pecado proibido não é todo tipo
de morte, mas o pecado de assassinato”.(p.642). Não é todo ato de matar que é
proibido no mandamento; o catecismo maior de Westminster em sua questão 136 abre
exceções especificas:
1.
No ato da Justiça Pública;
2.
Na Guerra legítima;
3.
Na defesa necessária.
No primeiro caso o ato
de justiça pública lidamos com o falamos dilema da pena de morte! Biblicamente
falando a pena de morte é ensinada como algo legítimo nas Escrituras sagradas!
O estabelecimento da
pena de morte fundamenta-se incialmente no conceito da imago dei. Isto
se confirma em Gênesis 9.6: “Se alguém derramar o sangue do
homem, pelo homem se derramará o seu; porque
Deus fez o homem segundo a sua imagem.” A pena de
morte é instituída porque a imagem de Deus deve ser preservada.
O segundo, caso em
quem matar é permitido é na ação chamada de Guerra legítima. Aqui
se destaca o fato de que o cristão pode mater sem incorrer em transgredir esse mandamento
quando estiver em um conflito bélico numa guerra legítima.
E, por fim, a defesa
necessária quando alguém atenta contra a nossa vida, e revidamos e a
pessoa morre somos livres da culpa daquela morte. Inclusive isto é o que ensina
Êxodo 22.2 “Se um ladrão for achado arrombando uma casa, e, sendo ferido,
morrer, quem o feriu não será culpado do sangue”.
ENSINOS:
- Definição de pecado
Pecado é a transgressão da Lei de Deus ou a falta de conformidade com ela. - Princípio dos mandamentos
Quando Deus ordena um dever, o pecado oposto é proibido — e vice-versa (regra do Catecismo). - Pecados contra o mandamento
Incluem principalmente: - Suicídio (tirar a própria vida)
- Assassinato (tirar injustamente a vida
de outro)
- Exceções bíblicas ao ato de matar
O mandamento não proíbe toda morte, mas permite em casos específicos: - Justiça pública (pena de morte)
- Guerra legítima
- Defesa pessoal necessária
APLICAÇÕES:
1.
Valorizar a
vida humana
Reconhecer que a vida é sagrada por refletir a imagem de Deus.
2.
Evitar
atitudes de violência e ódio
Controlar emoções e ações que possam levar ao dano ao próximo.
3.
Respeitar a
justiça e autoridade legítima
Entender que Deus estabelece limites e autoridades para preservar a ordem.
4.
Buscar
preservação da vida em todas as situações
Agir sempre com o objetivo de proteger a própria vida e a dos outros.
CONCLUSÃO:
Diante de tudo o que foi
exposto, o sexto mandamento revela-se muito mais profundo do que uma simples
proibição de tirar a vida. Ele nos conduz a uma visão abrangente e santa da
existência humana, mostrando que a vida é um dom precioso que procede de Deus e
deve ser preservado, respeitado e promovido em todas as suas dimensões. Somos
chamados não apenas a evitar o assassinato, mas a cultivar pensamentos,
atitudes e ações que honrem a vida — tanto a nossa quanto a do próximo.
Este mandamento nos confronta com a seriedade do pecado, que pode se
manifestar não só em atos extremos, mas também em sentimentos como ira, ódio e
desprezo. Ao mesmo tempo, ele nos direciona a uma vida de responsabilidade,
amor e cuidado, lembrando-nos de que somos mordomos da criação divina. Cuidar
do corpo, promover a paz, socorrer o necessitado e viver com equilíbrio são
expressões práticas de obediência a esta Lei.
Portanto, obedecer ao “Não matarás” é, em essência, viver para a glória
de Deus por meio da valorização da vida. É refletir o caráter do Criador em
nossas relações, buscando justiça, misericórdia e reconciliação. Que, pela
graça de Deus, possamos viver de forma digna desse chamado, sendo instrumentos
de preservação, cuidado e promoção da vida em um mundo marcado pela violência e
pelo pecado.